domingo, 22 de março de 2009

Viagem ao fim do mundo civilizado


























Nem só de viagens de mochileiro vive o homem...

A primeira parte das férias de 1998, decidimos passá-la contornando a Patagônia de navio, fazendo a rota ao inverso do caminho seguido por Magalhães.

Tomamos o avião de Porto Alegre para Buenos Aires, onde seríamos pegos pelo transporte contratado pelo nosso agente de viagens para nos levar ao Hotel Rochester.

No caminho, fizemos algumas perguntas a respeito dos espetáculos de tango que poderíamos ver em todo o grau de pureza, sem a estilização industrializada, ao que nos esclareceu o motorista que todas as casas de tango de Buenos Aires eram dedicadas à atração de turistas, umas com mais, outras com menos preocupação com a preservação da autenticidade.

O bairro onde se encontravam as tanguerias mais próximas do autêntico, Santelmo, apesar de durante o dia abrigar uma das mais populares feiras de antigüidades – cujo equivalente em Montevideo não era a Feira de Positos, mas sim a que se realizava na Praça onde se situava a Porta da Cidadela –, era muito antigo, com inúmeros cortiços, perigoso por causa dos imigrantes indocumentados.

No dia seguinte, fomos despertados de madrugada para pegarmos o transporte do Hotel para o aeroporto, onde pegaríamos o vôo para Santiago.

Fomos deixados em frente ao terminal das Aerolíneas Argentinas, quando teríamos de pegar o vôo da Lanchile.

Para não perdermos o check in, tivemos de ir correndo com o praterno, a mala de rodas, então pesando 25 kg e a bolsa.

Na fila, travamos conhecimento com um casal de idosos argentinos que pretendia pegar em Santiago o avião para Punta Arenas.

Contaram-nos sua viagem ao Egito, informando que mais interessante seria chegar às ruínas de Luxor e Carnac por balão.

Narraram-nos, também, a viagem à Índia, destacando a beleza do Cashemir, o túmulo de Gandhi, a Índia Mogul e a Índia autêntica de Calicute.

Recomendaram-nos muito a viagem que íamos fazer, que já haviam feito em um navio, o Skorpios.

Chegando a Santiago, saímos do aeroporto internacional em direção ao destinado a vôos domésticos para tomarmos o avião da Ladeco para Puerto Montt.

Não conseguimos antecipar o nosso vôo e tivemos que despachar o praterno no bagageiro, apesar de termos visto, depois, algumas pessoas conduzindo consigo os respectivos praternos.

Voltou Scheila por alguns instantes ao aeroporto internacional para fazer o câmbio.

Chegamos a Puerto Montt, cidade fundada por alemães, algo como uma Gramado portuária.

Tomamos um coletivo até o porto, onde tomaríamos o navio grego Odysseus, no qual costearíamos a Patagônia.

À época, havia alguma intranqüilidade na capital chilena, mercê da polêmica em torno do vitaliciamento do General Pinochet como senador, que estava sendo contestado pelos grupos que se opuseram ao regime militar instaurado em 1973, a cuja testa o aludido General esteve por dezessete anos, perante vários órgãos do poder constituído, com o que foi até bom que não nos tivéssemos demorado em Santiago.

Quase ninguém no navio falava o português, embora muitos falassem o inglês e alguns o espanhol.

Encontramos alguns brasileiros no barco, oriundos de São Paulo (Dagmar, auditora de tributos federais), Campinas (Paulo e Eny, professores aposentados, que tiraram, não sei de onde, a conclusão de que eu me parecia com o Maximilian Schell), Salvador (Dr. Dielson, médico, e Norlei, bióloga) e Recife (Bruno, administrador do porto, e Consuelo, biquímica).

Deixamos os passaportes na recepção, sendo-nos entregues, mais tarde, fotocópias.

O vice-diretor do cruzeiro, um costarricense chamado Allen Castro – logo aportuguesado para Alencastro – informou-nos que nos seria dado um número para os efeitos de descermos a terra, correspondente a uma ficha que teríamos de pegar ao sair e devolver ao retornar.

No dia seguinte, entramos no Canal da Patagônia, nas proximidades do Arquipélago Chiloé.

Fizemos o exercício de salvamento regulamentar.

Nosso camareiro, Iorgos, era um espartano muito simpático e, curiosamente, muito falante, que se comunicava conosco em um agradável inglanhol, misturado com uma mímica muito divertida, e sempre se interessava quanto a estarmos desfrutando do cruzeiro e nos brindava com chocolates belgas antes de irmos dormir.

Aliás, através dele ficamos sabendo da persistência da milenar rivalidade entre Esparta e Atenas, sendo os atenienses apodados de preguiçosos pelos espartanos.

Filmamos, no Canal, várias formações rochosas, algumas parecendo entalhes, outras com manchas de cobre, vários picos nevados à volta.

Entramos no mar aberto ao final da tarde e ali houve um mareio geral, graças às ondas violentas do Pacífico, que conhecêramos em Punta Hermosa.

Fui jantar sozinho, atendido na mesa que nos fora destinada por um simpático natural do Pireu chamado Spiros, que se sentia sumamente feliz, como se fosse ele o cozinheiro, quando elogiávamos a comida.

No dia seguinte, entramos em outro canal que conduziu ao Estreito de Kirke, onde não poderiam entrar navios com uma largura superior a 150 m (o Odysseus tinha 147,3 m).

O navio se dirigiu à Geleira Pio XI, em cujo caminho apareciam vários pedaços de gelo flutuantes.

Travamos conhecimento com uma bióloga paulista chamada Cláudia que estava guiando um grupo de norte-americanos e que nos informou sobre a necessidade dos farináceos no navio em virtude dos efeitos do mareio.

Ao se postar o navio em frente à geleira, os que estavam de filmadora em punho ouviram a palavra mágica: golfinhos.

E lá fomos nós a filmar-lhes as acrobacias nas transparentes águas geladas do Estreito de Kirke, em frente à imponente Geleira Pio XI.

À tarde, tomamos com Sérgio Salcedo e María del Sol, casal que dançou tango no filme Evita, de Alan Parker, um gostinho sobre o que seria uma aula da dança que é o cartão de visitas de Buenos Aires, da qual chegamos a aprender a seqüência básica de sete passos e uma variação dela.

Travamos conhecimento, também, com o ginásio do navio, com seus aparelhos para exercício dos músculos do abdomen, dos braços e das pernas, e lembramos logo do Dr. Luiz Vicente de Vargas Pinto, grande amigo nosso, que era verdadeiramente maníaco por exercícios físicos e cujo vigor, mesmo tendo ultrapassado a marca dos cinqüenta anos, era de fazer inveja a muitos rapazotes de vinte.

À noite, tivemos o coquetel de boas vindas do comandante, no qual houve um show de mágicas, a apresentação de quatro bailarinas russas, um bailarino romeno (Stefan), a quem as mulheres chamaram logo Antonio Banderas – e sobre o qual os homens não pouparam um único comentário desabonador -, um cantor (Misha) e uma cantora (Cristina) romenos, um cantor argentino (Agostino) e uma cantora belga (Ana Victoria), e Sérgio Salcedo e María del Sol.

Todos os artistas, com exceção de Sérgio e Sol e do pianista norte-americano Eric Himy, integravam a tripulação do navio.

Após o show, a orquestra do navio tocou música para bailar, tendo um americano de Connecticut tirado a Dagmar para dançar.

No dia seguinte, de madrugada, saímos, filmadora e máquina fotográfica em punho, atrás das focas, cujo nado vertiginoso tornava difícil de registrar o instante em que apareciam.

À tarde, fundeamos em frente a Puerto Natales.

Devido ao calado do porto, o navio não tinha condições de atracar, com o que tivemos de pegar as lanchas.

Após o almoço, fomos conhecer a cidade, um povoado simpático, fundado por um alemão no final do século XIX, no qual ainda se cultivava o hábito da sesta.

Os primeiros europeus, no século XVI, a visitarem o sítio onde se localizava a cidade foram espanhóis.

Contudo, a renhida resistência autóctone, até o século XIX, não permitira o estabelecimento de colônias permanentes naquela região.

Foi, como dito, só no final do século XIX que o explorador germânico Hermann Eberhar instalou uma estância de ovelhas que deu início à povoação.

Fomos andando do porto à Plaza de Armas e de lá até o Colégio Salesiano, onde havia um museu de História Natural.

Nos colégios, chamavam a atenção os uniformes das crianças, todas de paletó e gravata, calça comprida para os meninos, saia para as meninas.

Dagmar fez questão de tirar uma foto com as crianças para depois mostrar aos netos.

Quando chegamos, o Museu estava fechado, por causa da hora da sesta.

O Dr. Dielson, contudo, conseguiu que abrissem as portas do Museu pelo simples fato de ter pedido para rezar na capela do Colégio.

Como era possível tirar fotografias, aproveitei para filmar todos os exemplares da fauna chilena que ali estavam empalhados.

Na volta, passamos por uma loja onde adquiri um caderno, já que, ao sair do Brasil, esquecêramos este importante apetrecho.

No dia seguinte, acordamos às 5h30 para podermos fazer a visita ao Parque Nacional de Torres del Paine.

Às 7h, pegamos a lancha e subimos no ônibus que nos fora destinado, mais escangalhado que os demais.

O nosso guia explicou que "paine" seria um vocábulo Tehuelche – nome da tribo a que pertenciam os que Fernão de Magalhães denominou "patagones" – significando “azul”.

Pelo caminho, apareciam as aves: o falcão-peregrino, as emas (ali chamadas de ñandus), os carcarás ou carranchos.

Pastores de ovelhas trajando bombachas tocavam seus rebanhos, com a ajuda de ágeis e ferozes cães "pastores-ingleses" que mantinham os animais juntos.

Scheila contou-me que um dos cachorros que tivera em criança era exatamente daquela raça e o que tinha ele de inteligente tinha de feroz.

Guanacos paravam fazendo pose para as fotos.

Na entrada do Parque, guanacos e raposas andinas se aproximavam de nós para serem fotografados ou filmados.

A cada acidente geográfico ou ângulo diferente destes mesmos acidentes, o ônibus fazia uma parada, razão por que levamos mais de três horas para chegarmos ao ponto de onde sairíamos a passear a pé.

Havia, perpendicular ao caminho, uma estrada que levava à Caverna do Milodón ou megatério, onde se encontrou, no final do século XIX, uma pele de uma destas gigantescas preguiças em tão bom estado que uma lady inglesa resolveu organizar um safári cujo único fruto foi um livro sobre a viagem à Patagônia, narrando as peculiaridades da região.

Em uma das margens do lago Nordenskjold, um guanaco foi o último espécime de fauna selvagem que vimos no Parque.

Parando o ônibus, fomos experimentar o almoço, e uma boa parte dele estava tão horrível que nem o simpático cachorrinho com o qual resolvemos dividi-lo aceitou.

Logo após o almoço, tentei ajudar um senhor inglês, que estava com uma bengala, a se levantar.

Puxei-o com força demais, com o que ele escorregou na grama e caiu.

Outras pessoas vieram ajudá-lo e eu fiquei extremamente envergonhado.

Ao sairmos a pé, tomamos o cãozinho, que a cada passante exigia um agrado, como guia.

Chegamos a uma bifurcação em que o caminho da esquerda conduzia ao Salto Grande e o da direita ao mirador.

Fomos em direção ao Salto Grande (ifgura abaixo), onde encontramos Bruno e Consuelo, que haviam seguido outro caminho e se dirigiram ao mirador, e onde filmei o movimento das águas geladas em direção aos lagos.












Resolvemos, já que teríamos mais duas horas, seguir em direção ao mirante.

O cenário, realmente, era muito mais bonito, muito mais grandioso.

A neve, nos picos, tomava um tom azulado.

Viam-se vestígios nítidos de cascatas traduzidos por sulcos profundos na terra ou por grandes concentrações de neve.

Reencontramos Bruno e Consuelo e fomos seguindo até um lago, cujas águas transparentes dariam até vontade de entrar não fôra o frio cortante que ali faz mesmo no verão.

Bruno, ali, estacou, temeroso de perdermos o horário.

As mulheres seguiram em frente.

Eu estava meio receoso de enfrentar os espinhos dos arbustos do caminho, mas depois que um senhor da África do Sul passou por mim todo lépido e a passo firme, resolvi ir em frente.

Chegamos, ao fim, ao ponto em que o Lago Nordenskjold separa o final da trilha do sopé dos Cuernos del Paine.

Uma formação rochosa a Consuelo pareceu uma esfinge.

Voltamos, depois, pelo mesmo caminho por onde viemos.

Enquanto voltávamos, cruzamos com Cláudia, que estava aproveitando para conhecer o Parque.

Na ida, pegamos tempo ensolarado, mas ao sair, fomos colhidos por uma bela chuva.

À noite, após o jantar, Scheila e Consuelo foram dormir.

Bruno e eu ainda conversamos um pouco e, logo em seguida, proseamos com um editor chileno especializado em obras antigas que viajava com o filho, o Sr. César Soto, que nos mostrou uma curiosidade: era dia 18 de março de 1998 e no dia 21 de março completaria 480 anos da investidura de Magalhães como almirante responsável pela primeira viagem de circunavegação, admiravelmente registrada por Pigafetta.

No dia seguinte, saindo do Estreito de Kirke, resolvi aproveitar para pôr em dia as anotações.

Scheila distraía-se com um quebra-cabeças.

Enquanto anotava, ouvi pelo fonoclama o aviso de que passaríamos por um magnífico glaciar.

Saímos correndo, mas vimos que, apesar de belo, não era ele tão impressionante como a Geleira Pio XI, em que se via o gelo flutuando sobre o mar, nem quanto os picos nevados de Torres del Paine, com o que não nos pareceu motivo suficiente para gastarmos uma foto ou quadros da película da filmadora.

Compramos duas capas de chuva na boutique do navio.

Ao sair do banho, um solavanco que me fez perder o equilíbrio mostrou que entrávamos em um trecho de mar aberto, antes de entrarmos no Estreito de Magalhães.

Tomamos um “dramin” cada um, assistimos ao espetáculo de mágicas na discoteca do navio e, a seguir, dormimos.

Fomos acordados às 20h para irmos jantar e, logo após, espetáculo de canções e danças de vários países, após o qual houve música para bailar, sendo Dagmar tirada para dançar por outro norte-americano natural da Flórida.

Por brincadeira, dizíamos que yankees e confederados iriam à guerra de novo por causa da Dagmar, já que era disputada por um nortista de Connecticut e um sulista da Flórida...

No dia seguinte, fomos de lancha a Punta Arenas, Dagmar, Bruno e Consuelo, Scheila e eu.

O porto, em si, permitia a atracação do Odysseus, mas estava lotado, razão por que não pôde ser descarregado o lixo que se acumulava nos porões, de onde começavam a sair emanações que tornavam difícil permanecer muito tempo na popa.

A cidade fora fundada em 1848, escolhida a área pelo Governador José Santos Mardones por contar com lenha, porto, maior superfície e melhor clima para os rigores austrais, a fim de propiciar aos navios que passavam pelo Estreito de Magalhães em busca de baleias e lobos marinhos o abastecimento de água e carvão.

Até 1877, foi lugar destinado à segregação de militares e delinqüentes comuns, tendo sido palco, em 1851, de um motim encabeçado pelo oficial M. J. Cambiaso, que culminou com a morte das autoridades e a destruição do povoado.

Durante o Governo Manuel Montt, a região foi declarada zona de colonização, principiando a se desenvolver a criação de gado ovino, a indústria pesqueira e a mineração.

Scheila e eu, no dia, não levamos a filmadora, somente a máquina fotográfica.

Era dia ensolarado, temperatura ambiente de 8º C.

Na Plaza de Armas, tiramos uma foto aos pés da estátua de Fernão de Magalhães, no Chile conhecido como Hernando de Magallanes.

Quisemos tomar um ônibus para o “Free Shop” no qual estava escrito “No a la Zona Franca” e onde havíamos lido apenas “Zona Franca”.

O motorista avisou-nos do nosso erro, descemos poucos metros adiante, onde eu pude lobrigar uma inscrição no muro dizendo “Ni olvido ni perdón, Pinochet al paredón”, e tomamos um táxi.

O “Free Shop” lembrava muito o DC Navegantes de Porto Alegre.

Soubemos, então, que o comércio funcionaria ali das 10h às 12h30.

Compramos ali uma mochila azul, que também se podia converter em carrinho, atrás da qual estivéramos durante muito tempo.

Encontramos ali nosso simpático vice-diretor, Alencastro, e sua não menos simpática senhora, a diretora do cruzeiro Elizabeth.

Às 11h30 tomamos um táxi até o Museu Arqueológico, situado no Colégio Salesiano.

Fomos recebidos por um padre milanês, residindo ali por mais de sessenta e cinco anos.

Proibidas as fotos e filmagens, apreciamos os dioramas reproduzindo o dia-a-dia de cada uma das tribos ali viventes: os Onas (fueguinos), os Tehuelches (patagões) e Alajalifes (patagões).

Esqueletos de golfinhos e orcas, couros de focas, histórias de conflitos entre índios e pastores de ovelha que colonizaram aquela região, histórias da atuação evangelizadora dos padres salesianos, animais empalhados, artefatos de madeira, metal, pedra e couro, pinturas realizadas com pó colorido sobre tecidos, boleadeiras, narigueiras e brincos de metal.

Réplica de uma caverna, onde se localizavam reproduções de arte rupestre.

Comemos uma pizza que não era das melhores e, depois, subimos para o Cerro de la Cruz, de onde se podia ter uma belíssima vista não só da cidade e do mar como da Terra do Fogo, por uma tênue sombra.

Vimos que as casas não tinham grades, apesar do padre nos haver dito existirem ali muitos assaltantes.

Pareceu-nos que havia um bom nível de vida, apesar das coisas ali serem muito caras.

Tomamos, a seguir, a lancha e, enquanto Scheila se divertia com um quebra-cabeças e com um simpático garotinho de seis anos, filho de Sérgio e Sol, chamado Nahuel – única criança no cruzeiro e, portanto, o sobrinho de bordo –, fui filmar, afrontando os ventos, revoada de albatrozes a pescar nas proximidades do navio e algumas panorâmicas de Punta Arenas.

Aliás, tão freqüentemente víamos albatrozes que logo me vinham à mente os versos de Castro Alves:

"Albatroz! Albatroz! Águia do oceano,
Tu, que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviatã do espaço!
Albatroz! Albatroz! Dá-me estas asas..."

Registrei depois, malgrado ele mesmo, as travessuras de Nahuel na película cinematográfica.

Soubemos por Paulo e Eny que a família Schurmann, famosa pela circunavegação em veleiro, estava em Punta Arenas no mesmo dia em que chegáramos.

Contornaríamos a Terra do Fogo, que deve este nome às fogueiras que Magalhães viu acesas sobre as montanhas.

Fomos dormir cedo para não perdermos o espetáculo da Geleira de Romanche.

No dia seguinte, tirei várias tomadas do amanhecer na Geleira em questão, bem como dos glaciares que a compunham.

Uma das cenas mais impressionantes que consegui registrar foi uma cascata provocada pelo degelo em um dos glaciares.

Scheila, Consuelo e Bruno jogavam pingue-pongue enquanto eu filmava de um lado a costa chilena e do outro a costa argentina.

Estávamos no Canal de Beagle, que devia este nome ao navio que, em meados do século XIX, conduziu Charles Darwin em sua viagem naturalística, cujo diário era livro de cabeceira de muitos dentre os turistas de língua inglesa.

Aquele Canal já havia sido objeto de inúmeras disputas no campo diplomático e mesmo militar entre a Argentina e o Chile, mesmo no final do século XX.

A temperatura de 8º C tornava inacreditável a proposição segundo a qual estávamos em pleno verão.



O navio atracou em Ushuaia, capital da província argentina da Terra do Fogo.

A cidade, inaugurada em 1884, teve a soberania argentina reconhecida nesta mesma data.

Havia ali, antes, uma missão anglicana.

Durante anos serviu para a segregação de delinqüentes e adversários do regime político, notadamente o peronista.

Sua colonização teve maior intensidade durante o governo do General Roca, que se dispusera a conquistar para o homem branco cada pedaço de terra da Argentina.

A cidade não tem uma praça central, a vida comercial se concentra ao longo da Avenida San Martin, que é separada do mar pelas casas e pela Avenida Maipu.

Dagmar, Scheila e eu tomamos um táxi para visitarmos o Parque Nacional da Terra do Fogo e a Baía de Lapataia.

O motorista, natural de Mendoza, mostrava-se bastante bem informado sobre a história da ilha.

O carro que nos conduzia, curiosamente, era um monza fabricado no Brasil.

O caminho era margeado por bosques, via-se a linha férrea outrora destinada ao transporte de prisioneiros e depois ao passeio de turistas.

Filmei as margens do Lago Roca (figura ao lado), ótimo lugar para camping, onde, contudo, se acabou a bateria da máquina.

Os “aguiluchos”, que, a princípio, pensei que fossem falcões, pegavam em rasantes detritos que os campistas deixavam.

Na Baía de Lapataia, final da Ruta nº 3, que corta a Argentina de Buenos Aires até o extremo sul, fotografamos os inúmeros coelhos ali viventes.

Voltando às proximidades do porto, fomos, Dagmar, Scheila e eu, verificar o que poderíamos adquirir em termos de lembranças dali.

Fomos, em seguida, a um café onde Scheila e Dagmar tomaram um chocolate e eu tomei um chá.

Logo depois, voltamos ao navio, do qual foram tirados mais de seis containers de lixo.

Os petréis, albatrozes e gaivotas disputavam o lixo que era depositado nos containers do cais.

Filmei, na discoteca do navio, os músicos Lucian e Constantin, cujo conhecimento da música brasileira se limitava aos sucessos de Carmem Miranda.

Após o jantar, a noite de tango que tanto esperávamos.

Uma reprodução do Caminito, com suas casas coloridas.

Ana Victoria e Agostino cantaram alguns tangos e uma valsa, Constantin tocou no acordeon Adios, muchachos.

Entretanto, as estrelas do show eram Sérgio Salcedo e María del Sol.

Dançaram o tango da Boca, dos tempos em que era considerado uma dança vulgar, e o tango requintado da Recoleta, o tango estilizado de Astor Piazzola – aí, acabou o filme – e o mais famoso dos tangos, curiosamente composto por um uruguaio – La cumparsita -.

Inesperadamente, Sérgio tirou Scheila para dançar e Sol me convidou, recusando um não como resposta.

Scheila, mais flexível, saiu-se, evidentemente, melhor do que eu, que consegui fazer com que Arnold Schwarzenegger parecesse um Nijinsky, para o total desespero da minha partner, acostumada com a leveza do marido.

Enfrentamos as ondas do Atlântico, extremamente violentas, até Puerto Madryn, onde pegaríamos uma excursão para Punta Tombo, onde se reuniam os pingüins de Magalhães.

No caminho para Puerto Madryn, com todo o jogo do navio, Eric Himy conseguiu executar peças extremamente difíceis ao piano, como a Dança ritual do fogo, de Manuel de Falla e prelúdios de Rachmaninov e Domenico Scarlatti.

Sérgio Salcedo e María del Sol passaram por nós e comentaram o fato de serem muito caros os eletrodomésticos em Ushuaia.

Contamos-lhes que filmáramos o show que deram por ocasião da noite de tango e mostramos-lhes as cenas então registradas.

Na hora do jantar, Scheila, passando mal, desceu comigo para o refeitório.

Spiros, preocupado, administrou-lhe um “dramin” e aconselhou-a a subir para a cabina e ir dormir.

No dia seguinte, acordamos tarde, razão por que perdêramos o café da manhã na popa.

Dirigimo-nos, então, ao refeitório e, a princípio, houve resistência, porque, no espaço de meia hora, haveria uma aula sobre como preparar um prato típico grego à base de beringela denominado moussaka.

Spiros, impossibilitado de resolver por si o problema, mas preocupado conosco, chamou o maitre e explicou o problema.

Vencemos a primeira resistência à custa do argumento de haver um motivo suficiente para termos perdido o café da manhã, qual seja, o fato de que Scheila, efetivamente, passara mal na noite anterior, e somente se sentira recuperada ao acordar, tendo necessidade de se alimentar para recobrar forças.

Entretanto, queriam servir-nos café com croissants, enquanto Scheila necessitava de bananas, mel e sucrilhos, uma vez que seu organismo já não estava muito receptivo à comida feita pelo cozinheiro de bordo.

Ante a resposta de que não seria possível servir bananas e sucrilhos, perguntou ela, então, onde estariam as bananas.

Entre vencido e divertido, o maitre acedeu.

Após o café da manhã, fui à sala de leitura e Scheila foi à aula, da qual não reteve muita coisa, tal a quantidade de ingredientes e de fases preparativas que eram requeridas pelo prato (o “boca aberta” aqui esqueceu-se de tomar a óbvia providência de lhe passar uma folha de papel para anotar).

Perguntei a Eric Himy se a transcrição feita por Liszt para o Liebestod de Wagner estava em seu repertório, ao que me respondeu afirmativamente, informando-me, ainda, da existência de outra transcrição, com efeitos mais orquestrais, de Moritz Moszkowsky.

Ao que me informou o Sr. César, o pianista era discípulo de Cláudio Arrau, o grande virtuose chileno que estudara com Krause, o último discípulo de Liszt.

Foi também nesta fase da viagem que ocorreu a noite grega, quando todos deveriam vestir azul e branco.

Iorgos estava dentre os tripulantes que dançaram as danças típicas do país, fazendo, surpreendentemente, uma cara séria, ele, que era tão sorridente.

A coreografia da maior parte delas é extremamente difícil, requer bastante agilidade, o que encantou o meu saudoso amigo Dr. Luiz Vicente de Vargas Pinto ao assistir ao filme.

Consegui filmar quase tudo, exceto o momento mais interessante – deveria dizer, mesmo, mais bonito –, que foi justamente quando foram puxados todos os circunstantes para participarem da dança.

Quando fomos pedir que nos acordassem cedo, para não perdermos os pinípedes em Puerto Madryn, vimos o bom Spiros na recepção, anotando os pedidos.

Acordara, como todos, bem antes das quatro da manhã, e iria dormir somente à meia noite.

Atracado o navio em Puerto Madryn, descemos para vermos as focas e leões marinhos que subiam as escadas do porto.

Pegamos, em seguida, o ônibus que nos fôra destinado.

Quando, em virtude de estarem no ônibus todos os brasileiros, excetuando a Cláudia, e mais mexicanos, pedi ao guia que intercalasse as explicações em inglês com traduções em espanhol, antipaticamente, respondeu “I’ll try to make an effort”.

O ônibus foi seguindo pelas poeirentas estepes da Patagônia argentina.

Um dos passageiros ianques teve a idéia brilhante de abrir a janela para entrar um pouco de ar, ao invés de abrir a carlinga superior.

O resultado foi a entrada de um poeirame total, a que o nosso guia, sempre pronto a agradar os anglófonos, resolveu, ao invés de abrir a carlinga, abrir a janela do outro lado do ônibus, com o que passou a haver duas fontes diferentes de pó.

Fechei a janela para evitar a entrada de mais poeira e uma senhora norte-americana pediu ao nosso antipático guia que abrisse o orifício mais óbvio para fazer com que se renovasse o ar, sem que entrasse mais pó: a carlinga superior.

O guia ia dando as suas explicações em mau inglês, sem verter para sua língua nativa, até que Paulo lhe chamou a atenção para o fato óbvio de que havia muitas pessoas dentro do ônibus que não tinham o inglês como língua nativa, entendiam perfeitamente o espanhol e, tal como os anglófonos, haviam pago pela excursão, e não pouco.

Como foi pôr em dia toda a parte da explicação em inglês que não havia sido traduzida, pareceu a alguns ianques que ele estava falando espanhol em excesso.

Chegando a Punta Tombo, verificamos que havia pingüins em profusão, e que as aves eram extremamente sociáveis, chegando bem perto dos seres humanos, só não se deixando pegar, sob pena de responderem com uma valente bicada.

Eram pingüins de Magalhães, que não chegavam a ultrapassar 40 cm de altura.

O hábito de andarem em fila, as entradas e saídas de dentro das águas geladas e transparentes do Atlântico Sul, ora correndo atrás de crustáceos e moluscos, ora atrás, pura e simplesmente, de brincadeira, o descanso à sombra dos arbustos da estepe patagônica.

No meio da algazarra que faziam, isolado, o seu inimigo mais temível, porque alado: a gaivota, que esperava o relaxamento na vigilância para poder-lhes comer os ovos e os filhotes.

Soprava ali um vento cortante, cuja violência era tal que, no filme, por vezes, abafava o som da própria voz do “cineasta”.

Ao retornar ao ônibus, o guia, querendo ser engraçado, perguntou-me se não estava levando na bolsa algum pingüim, ao que respondi, bem sério, que não.

“Only inside your camera?” perguntou, então.

“No. Inside my film”, respondi, no melhor modo britânico de se tratar a um lacaio.

Entre Punta Tombo e Puerto Madryn, passamos por Gaiman, um povoado galês onde residiram os bandidos Butch Cassidy e Sundance Kid antes de se trasladarem à Bolívia, para nela terminarem seus dias.

Havia ali uma típica casa de chá galesa, onde já estivera Lady Di.

Além do bom gosto do chá – e o guia, depois da “cortada” que eu lhe dera ao voltar ao ônibus, resolvera tornar-se um pouco mais simpático, com o que conseguiu do zero que tinha recebido de começo subir para cinco, na escala de zero a dez – havia um coro de estudantes que cantava músicas típicas gaélicas e também do norte da Argentina, onde os coyas mantém alguns costumes da civilização andina bem vivos, como o da compra e venda de gêneros se fazer cantando.

Quando falamos com Alencastro a respeito das focas e leões-marinhos, informou-nos que, em determinadas épocas, as orcas chegavam a Puerto Madryn e saltavam de forma a deixar até mesmo meio corpo sobre a terra firme para colherem os filhotes dos pinípedes.

Entre Puerto Madryn e Mar del Plata, as ondas jogaram de tal forma que eu mesmo fiquei mareado, eu, que havia ficado invicto até então.

No café da manhã, quando Dagmar se sentou para fazer a refeição, o navio jogou com tal violência que ela caiu com cadeira e tudo no chão.

Antes de eu começar a marear, Sérgio contou-nos que, cansados da comida do navio, sempre com muito tempero – a medida do grego é muito semelhante à medida do árabe –, ao chegarem a Puerto Madryn, foram em busca de uma pizza decente, já que em Punta Arenas haviam comido uma pizza horrível (creio que a mesma que comêramos).

O interessante é que estando Scheila e eu na cabina, completamente fora de combate, ainda ouvimos Nahuel correndo pelo navio, divertindo-se à larga...

No salão de eventos, o piano de cauda chegou a tombar.

Em Mar del Plata, Dagmar, Bruno, Consuelo, Scheila e eu, após atravessarmos um pátio contíguo ao porto onde havia vários pombos mortos, dirigimo-nos ao aquário, onde provavelmente poderíamos ver um show aquático.

Fechado que estava o aquário, resolvemos seguir até o calçadão que começava na Praça General San Martin e terminava na beira-mar.

Ali na Praça, tal como na Plaza de Mayo em Buenos Aires, havia lenços pintados que representavam, em frente à Catedral, as mães dos desaparecidos políticos, e ainda os dizeres “Ni olvido, ni perdón, cadena a los genocidas! La única lucha que se pierde es la que se abandona”, muito mais construtivos que os vistos no muro em Punta Arenas.

Na pizzaria Pizza e Pizza, comemos uma pizza semelhante à de Cuzco, do Chez Maggi.

Vimos a praia onde veraneava a simpática contestadora Mafalda, subimos nos molhes ali existentes, chicoteados pelas ondas bravas do Atlântico.

Quando viajamos ao Uruguai, mais tarde, tivemos a oportunidade de ver o engenho que converteu, em Piriápolis, um litoral abaulado em enseada.

Mas, voltemos à viagem que está sendo relatada.

Retornamos a bordo, após filmarmos uma panorâmica da cidade onde a Argentina se sagrou campeã mundial na Copa de 1978.

Fomos recebidos por Emilian, o mágico, romeno de nascimento, que apontou para as semelhanças entre o seu idioma e o nosso.

Aliás, no tocante a idiomas, já estávamos aprendendo algumas palavras em grego – eph’aristo, significando "obrigado", parakalô, significando tanto "por favor" como "de nada", kal’eméra, significando "bom dia", kale spéra, significando "boa noite", para os efeitos de cumprimento, kale nykta, significando "boa noite", para os efeitos de despedida, piato, significando "pires" – e estávamos ensinando aos membros da tripulação que nos atendiam algumas palavras em português.

Ao encontrarmos no navio Sérgio Salcedo, contamos-lhe que comemos uma pizza em Mar del Plata, ao que nos respondeu “Los invidio”.

O navio jogou com tal violência antes de entrarmos no estuário do Prata que nos pareceu melhor remanescermos na cabina em nosso leito.

Deixamos a filmadora do meu lado da cama – providência, aliás, pensada pela Scheila, com o espírito prático que lhe é peculiar –, com o que nada havia que sobre ela pudesse cair, danificando-a.

As coisas que estavam sobre a cômoda caminhavam de um lado para o outro.

Foi um verdadeiro pandemônio.

Bruno, que estava filmando a saída do navio de Mar del Plata e colhera algumas focas seguindo-o, captou, com a sua câmera, a violência com que jogava o Atlântico, adernando as embarcações, quase fazendo-as soçobrar, as pessoas tendo que se segurar firme para não caírem, Nahuel, protegido pelos preocupados pais, com um sorriso bem aberto na face, divertindo-se a valer.

Ao serenarem as águas, ao final da tarde, fomos ouvir o pianista Eric Himy, verificando se depois da queda violenta que sofrera o piano ainda poderia ele, como pôde, efetivamente, reproduzir as peças de Rachmaninov, Scriabin e Rimsky Korsakov (este último em transcrição de Rachmaninov), Gluck e, por último, aproveitando o centenário, uma transcrição para piano da Suíte Porgy and Bess, de Gershwin.

No jantar, foi-nos oferecida uma espécie de torta de sorvete flambada.

À noite, o espetáculo de despedida, no qual fiz questão de filmar a última apresentação de Sérgio Salcedo e María del Sol.

Houve, então, um imprevisto: no encerramento do espetáculo, as bailarinas com o Banderas apareceram e uma delas resolveu me tirar para dançar (ainda bem que Scheila estava vendo, ou eu teria de dar muitas explicações).

E lá fui eu de novo, mostrando quão destro em dança um hipopótamo pode ser.

Chegada a Buenos Aires, foi-nos oferecida carona em um coletivo que pararia na Plaza San Martin, Dr. Dielson, Norlei, Dagmar, Consuelo, Bruno, Scheila e eu.

Fomos à Plaza de Mayo, onde se interpôs entre a minha câmera e a Casa Rosada uma passeata de desempregados, protestando em ritmo de samba.

Encontramos no caminho César, o filho do Sr. César Soto.

Dali, tomamos dois táxis para a Recoleta, a fim de comermos uma boa pizza em Los inmortales.

No caminho, de dentro do táxi, consegui pegar um bom ângulo do famoso Obelisco e do Teatro Colón.

O Dr. Dielson, Norlei, César e eu, além da pizza, resolvemos tomar um submarino, que é uma barra de chocolate dissolvida no fundo de um copo com leite quente, beberagem muito apreciada também no Uruguai.

Fomos às Galerias Pacífico, onde aproveitei para completar o meu Anel dos Nibelungos adquirindo A Walkyria, mais um CD com obras raras de Richard Wagner, mais o Rienzi, mais um álbum com dois CD’s de Tchaikovky, a 6ª Sinfonia e as suítes dos ballets Quebra-nozes e Lago dos cisnes, tudo isto por cento e quatro dólares (no Brasil, só A Walkyria seria, por baixo, cem reais).

Mais tarde, vim a saber que o Senhor César Soto era um estudioso da obra de Nietzsche, e que considerava a leitura do genial louco de Röcken indispensável para a compreensão do trabalho de Richard Wagner.

Visitamos também a Galeria Alvear, na Recoleta e, depois, voltamos ao navio, onde fechamos a conta e deixamos uma gorjeta bastante merecida tanto pelo Iorgos como pelo Spiros.

Ainda filmei o navio todo iluminado por fora e as últimas travessuras do Nahuel.

No dia seguinte, a troca de endereços e as despedidas, tendo a Norlei vertido uma lágrima.

Saímos do navio e pegamos um táxi para o Hotel Rochester.

Deixando ali nossa bagagem, resolvemos pegar o Metrô para a estação ferroviária onde tomaríamos o trem para San Isidro.

Descemos em estação diversa daquela que visitáramos da outra vez em que estivéramos em Buenos Aires e fomos caminhando.

Travei conhecimento com as livrarias de San Isidro e, logo, próximo ao terminal ferroviário que ligava aquele bairro “chic” ao porto fluvial conhecido como El tigre, que devia este nome a uma onça que ali vivera em priscas eras, descobrimos uma mansão com uma placa onde se lia "La Teté", o que nos motivou a filmá-la, em lembrança da Esther, nossa querida amiga a quem chamamos carinhosamente “Teté”.

Descemos, então, as escadarias que nos separavam da rua onde se situava o terminal, no qual havia um interessantíssimo shopping center, ali entramos, compramos as passagens para retornarmos ao centro, fomos comer alguma coisa.

Filmei não apenas os locais que se mostravam de maior interesse para um tour gatronômico como também o autêntico parque de diversões que ali havia, com uma explosão de crianças por todos os lados.

Acima, uma catedral em meio a árvores copadas.

Voltamos ao centro e fomos passear pela Florida e pela Lavalle.

Descobrimos que havia um estabelecimento da Los inmortales na Lavalle, e ali adentramos.

Quando o garçom viu que tínhamos um grande interesse na figura de Carlos Gardel, personagem extremamente ligado à história da pizzaria, deu-nos atendimento de primeira qualidade.

No dia seguinte, falhou-nos o transporte que havíamos já pago no Brasil.

Ficamos esperando no hotel mais de meia hora e, ao chegar o momento a partir do qual só se poderia chegar ao aeroporto na hora limite – ainda mais se considerarmos que entre a cidade de Buenos Aires e o aeroporto existiam três pedágios –, tomamos um táxi.

Ruínas e cataratas


Quando se fala em visitar a Argentina, logo se pensa em Buenos Aires, com suas livrarias, seu magnífico Teatro Colón, suas imponentes Galerias Pacífico, a Pizzaria Los inmortales, a Recoleta e tantas outras atrações que oferece a cidade que Gardel adotou.

Outrossim, quando se fala em visitar o Paraguai, o que se tem em mente é, em regra, o grande mercado que é a Ciudad del Este.

Entretanto, nossa viagem para ambos os países em dezembro de 1997 teve como objetivo conhecer, mesmo, as ruínas das Missões fora do Brasil.

Um colega meu de serviço, Dr. José Guilherme, já havia estado em San Ignacio Mini, na Argentina, e dissera estar melhor conservada que as Missões riograndenses.

Scheila e eu, após verificarmos os possíveis caminhos para ali chegarmos, decidimos ir por Foz do Iguaçu, no Paraná, pois eu ainda não tinha visto pessoalmente as cataratas.

Após descermos do avião, tomamos um táxi até o hotel onde pernoitamos.

Dali, tomamos as informações sobre o melhor meio de irmos a San Ignacio Mini e, em seguida, pegamos um ônibus para o posto fronteiriço com a Argentina, onde foram carimbados os passaportes em uma operação estranhamente muito demorada.

Do posto, seguimos a pé até Puerto Iguazu, ladeando os caminhões que esperavam a liberação das respectivas cargas pelos fiscais aduaneiros.

Entrando na cidade, obtivemos informações sobre o transporte a San Ignacio, e verificamos que o melhor horário para sairmos de Puerto Iguazu seria, o mais tardar, nove horas da manhã.

Fizemos, então, sinal para um ônibus que se dirigia a Posadas, já que San Ignacio ficava no caminho para essa cidade.

A estrada era ladeada por serrarias e pela floresta sub-tropical.

A paisagem era tão semelhante à do Paraná que, não fosse a existência do marco fronteiriço e a língua falada pelos habitantes, seria possível dizer-se que se tratava do mesmo país.

Aliás, a rigor, ali deveria ser o cenário do filme The mission, de Roland Joffe, com Robert De Niro e Jeremy Irons, que, no entanto, foi rodado na Colômbia, em plena Floresta Amazônica.

Chegada a San Ignacio.

Caminhamos em direção às ruínas jesuíticas, que se localizavam a três ruas de distância da praça em que descêramos.

Ao chegarmos à primeira parede visível do parque onde elas estavam localizadas, vimos que teríamos de dar quase uma volta inteira ao redor do quarteirão para termos acesso a seu interior.

Bares e restaurantes ladeavam o parque.

Almoçamos no primeiro em que encontramos uma vaga.

Na entrada do parque havia um museu, onde se realizavam, também, representações teatrais.

A redução, fundada em 1610, na região do Guairá, trasladou-se em 1632 fugindo das incursões dos bandeirantes até que, em 1696, instalou-se no sítio que então estávamos visitando.

Seguimos por um corredor de residências dos indígenas, sem telhados, que conduzia à catedral.

Ao lado da catedral, o cemitério onde se enterravam os índios, cabendo aos padres o sepultamento nas criptas sob o altar maior.

No pátio, bandos de quero-queros se reuniam e teiús corriam fugindo da aproximação humana.

À noite era realizado nas ruínas, tal como ocorria em São Miguel das Missões, no Brasil, o espetáculo de som e luz.

O nome de San Ignacio Mini fora dado àquela missão em virtude da existência de outra missão em homenagem ao fundador da Companhia de Jesus – Santo Inácio de Loyola – situada no Paraguai, a poucos quilômetros de Assunção, chamada San Ignacio Guazu, datada de 1609.

Saindo dali, tomaríamos o ônibus para Santa Ana, no qual o tratamento foi abaixo da crítica.

Fomos viajando em pé e foi-nos cobrado duas vezes mais que no ônibus anterior.

Perguntamos a respeito da localização das ruínas e nos deixaram na entrada da cidade, dando uma informação vaga, quando deveríamos ter descido pelo menos 4 km depois.

Após chegarmos a uma praça onde havia um monumento ao lavrador, com uma homenagem ao Presidente General Julio Roca, que, na Campanha do Deserto (1878), empurrara os índios para o norte para darem espaço ao colonizador branco - homenagem, esta, que também se verificaria na nota de 100 pesos -, perguntamos se estávamos muito longe das ruínas às primeiras pessoas que vimos.

Contaram-nos que deveríamos ter descido 4 km adiante, do lado oposto da estrada.

Seguimos a pé até a entrada da cidade e, em seguida, fomos andando até a entrada para as ruínas de Santa Ana, já que nenhum ônibus queria recolher-nos para fazer tão curto percurso.

O caminho era uma estrada de terra, com vários altos e baixos.

Chegamos às ruínas.

Ali dentro, segue-se um caminho de pontes de madeira, com vários teiús atravessando-o.

A missão de Santa Ana estava mais destruída que São Miguel, podendo se comparar a São João Batista, em termos de conservação.

É ela datada ainda dos tempos em que o bandeirante paulista Antônio Raposo Tavares ia prear índios, nas reduções do Paraná, tendo-se trasladado inúmeras vezes, desde a sua fundação, em 1633 até 1660, quando se instalou no local que então estávamos visitando, local que foi bastante propício a seu progresso até a sua destruição no ano de 1817, em virtude da guerra de fronteiras entre as tropas de Artigas e do Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarves.

As árvores trepadas sobre os muros do que antes fôra um templo, os cactos vencendo as fendas dos tijolos que compunham os terraços de contenção.

Em compensação, fomos ali muito bem atendidos pelo pessoal, que, inclusive, encheu nossas garrafas com suco de limão, uma vez acabadas nossas reservas de água.

Chegando a Posadas, resolvemos parar no Hotel Libertador, onde conseguimos alugar um automóvel com chofer – pena termos esquecido o nome, tal foi a gentileza e a boa vontade para conosco! – para irmos às missões do lado paraguaio e voltarmos ao Brasil.

Devo registrar, ainda, que, um pouco antes de contratarmos o chofer, fui convidado para tomar uma cuia de chimarrão, que de bom grado aceitei, lembrando os tempos em que trabalhava no interior do Estado do Rio Grande do Sul.

Aliás, era a primeira vez que na Argentina eu recebia este traço característico da hospitalidade gaúcha (viajando, mais tarde, um pouco mais ao norte, visitando os salares na fronteira com o Chile, as ruínas de Tastil - que abrigaram um povo guerreiro e orgulhoso, que preferiu um suicídio coletivo, submergindo em meio ao Oceano Pacífico, à incorporação ao Tahuantinsuyu -, o Pucará de Tilcara, a igreja de Uquía construída em 1691, abrigando as pinturas dos anjos em trajos de arcabuzeiros do século XVII, a brancura barroca de Cachi, os gigantescos cactos que margeavam as estradas das províncias de Salta, Jujuy e Tucumán, impressionar-me-ia muitíssimo com a demonstração de uma extraordinária boa educação por parte dos argentinos daquela região).

Verificamos, efetivamente, que dado o difícil acesso a muitas das ruínas e em virtude dos acontecimentos no ônibus para Santa Ana, para conseguirmos no menor espaço de tempo possível ver o máximo e com o mínimo de percalços, melhor seria, mesmo, que alugássemos um automóvel.

A natureza foi bastante pródiga com o Paraguai, cujos campos mostravam uma notável transição da floresta subtropical para o cerrado, e isto no espaço mínimo que lhe coube.

Trinidad, datada de 1706, nos impressionou pelo estado de conservação, embora uma das paredes laterais tivesse caído.

O púlpito com os entalhes ainda bem visíveis, reproduzindo, tal como os capitéis das missões brasileiras e argentinas, as folhas da erva-mate e figuras antropomorfas com traços guaranis.

Em cada uma de suas faces, aparecia um dos quatro animais do Apocalipse – o leão, o touro, a águia e o anjo, este último com traços bem guaranis – .

Imagens dos santos ainda nos seus nichos, anjos portando harpas, violas e alaúdes em baixos-relevos sobre as janelas.

Entalhes sobre a porta da sacristia, seguindo a mescla do estilo barroco, extraordinariamente rebuscado, com o dado autóctone da vegetação nativa.

A visão panorâmica que se tinha do alto do que teria sido, antes, o côro da catedral permitia várias fotos interessantes.

Ali se podia verificar um dos traços da arquitetura tipicamente espanhola que eram as marquises nas residências dos índios, com as colunas ligadas por arcos, embora o dado autóctone, das pedras juntas sem argamassa aparente, também se fizesse presente.

O caminho para Jesús – redução fundada em 1685 – era uma estrada de terra, muito barrenta e esburacada, cheia de atoleiros, que ia dar em um vilarejo cercado de árvores, no qual, curiosamente, haviam residido tanto ingleses como portugueses, embora as construções, sob o ponto de vista arquitetônico, nada tivessem de especial.

A catedral, entretanto, valia as dificuldades para a ela se chegar.

Restaurada, com as paredes todas inteiras, faltando apenas o telhado, o acesso difícil preservou-a com mais facilidade à sanha dos saqueadores.

É interessante o significado que para cada um destes países tem a preservação deste ponto de intersecção entre as respectivas histórias: para o Brasil e Argentina, trata-se de preservar o patrimônio histórico, para o Paraguai, mais que isto, é um patrimônio familiar, pois a maioria da população era descendente dos atores do drama da Guerra Guaranítica.

Mais que uma edificação de um templo religioso, o que ali se via era o fruto do trabalho dos antepassados, era a contribuição destes às gerações futuras, e por isto é que tinha de ser preservada.

Aliás, este dado me parece suficiente para dar razão à análise de Capistrano de Abreu, quando considera que a resistência dos missioneiros às tropas do Tratado de Madrid não se deu por instigação dos jesuítas, que, aliás, tinham dentre os princípios a serem seguidos a incondicional obediência a seus superiores, mas exatamente porque não se tinham os padres assenhoreado por completo das almas dos gentios, frustrando, assim, as expectativas dos Reis de Espanha e Portugal.

Parece-me importante registrar que, do lado paraguaio, a decadência das Missões se iniciou em 1768, quando foram expulsos os jesuítas da Espanha e de seus domínios, tendo culminado à época da ditadura do Dr. Gaspar Rodriguez de Francia, o antecessor dos López, cujo último representante protagonizou a Guerra com a Tríplice Aliança.

Mais tarde, li no relato do Coronel Fawcett que, no Chaco, os índios capturaram uma aldeia de origem jesuítica com igreja e tudo, impedindo o acesso de todos os homens civilizados a ela, conservando, ainda, a tradição de homens brancos com armaduras e utilizando a cruz como símbolo desde tempos imemoriais, não a cristã, mas a budista, de acordo com o que lhe informara o Ministro japonês em Assunção.

Conhecemos o Parque argentino das cataratas do Iguaçu, após simplesmente passarmos por Ciudad del Este, pois não nos apetecia em nada descer naquela cidade, já que nosso objetivo não fôra o de fazer compras.

Cruzando a vegetação pelas trilhas de cimento, das quais não se poderia sair em virtude de haver muitas cobras venenosas no Parque, volta e meia dávamos com um daqueles grandes saltos, em que os arco-íris adotavam forma semi-circular.

Ao regressarmos ao Brasil, o motorista nos deixou em um hotel na Avenida das Cataratas, no qual havia inclusive um mini-zoológico.

Um quati, em seu cercado, escavava furiosamente, frustrado porque do outro lado estavam inúmeros galináceos – faisões e pavões, sobretudo –, que, não fossem as grades, já se teriam convertido em um manjar.

Um filhote de veado catingueiro seguia-nos pelos caminhos de pedra do jardim do hotel, que eram cruzados de vez em quando por um teiú em disparada.

No dia seguinte, com um automóvel do hotel, fomos ao heliporto onde faríamos o passeio de sobrevôo das cataratas.

A despeito do meu famoso medo de altura, sentei-me à frente, ao lado do piloto e fui fotografando por vários ângulos o rio e as florestas de suas margens, as águas se despenhando montanha abaixo, os vapores se elevando.

As manobras do helicóptero, com toda a confiança que se depositava no piloto, para quem estava sentado na frente e morria de medo de altura, não deixavam de ser algo eletrizante.

Visitamos o lado brasileiro das cataratas, cujas trilhas são muito mais seguras que as do lado argentino e onde se tem o melhor ângulo de visão: aos argentinos foi dado o lado mais belo das cataratas e a nós a possibilidade da contemplação desse lado mais belo.

E pensar que estas cataratas, que constituíram o motivo mais forte para a atração do turismo à região no século XX, aos tempos da colonização eram um verdadeiro obstáculo que se colocava à exploração do interior da América do Sul.

Fizemos, depois, um míni-safári pela floresta subtropical – “Macuco Safári de Barco” – , em um comboio puxado por um jipe do Exército, que nos conduziria até o início da trilha para o embarcadouro onde tomaríamos a lancha para um passeio até as proximidades do ponto onde as cataratas terminavam a sua queda e reviveríamos as mesmas emoções que Don Alvar Nuñez Cabeza de Vaca experimentou ao descobrir o acidente geográfico que hoje atrai turistas do mundo inteiro.

Uma norte-americana, no caminho que fazíamos para o atracadouro, perguntou-me se os lagartos que cruzavam o nosso caminho entravam na dieta normal do brasileiro.

Respondi-lhe que na minha dieta não entravam, e que eles só eram consumidos por quem tinha que sobreviver na selva.

Quando chegamos ao atracadouro, os americanos já se sentiam contentes com o caminhar pela floresta, não se aventurando a embarcar nos botes de borracha a motor que nos levariam a conhecer as cataratas por baixo – isto é, a própria finalidade do passeio foi por eles desprezada –, o que me fez chamá-los, em bom português, já que faziam questão de mostrar que não entendiam, de “frouxos”.

Para eu pagar o meu gesto infantil, uma senhora americana idosa, pertencente – felizmente – a outro grupo foi na nossa lancha e, muito simpática e gentil, fotografou a Scheila e eu.

Um casal de pessoas idosas falou-nos muito bem de Cassino, balneário nas proximidades de Rio Grande, o que nos fez trazê-lo às nossas cogitações, já que o litoral gaúcho, modo geral, era caracterizado por sua forma retilínea e suas ondas violentas, o que fazia com que as necessidades de praia fossem supridas pelo vizinho Estado de Santa Catarina.

A seguir, fomos visitar o Parque das Aves no qual se viam, cruzando o caminho dos seres humanos, tucanos, araçaris, beija-flores, joões-de-barro, separados por vários viveiros arborizados em que havia pontes de madeira para se prosseguir sem o risco de pisotear ninhos de pássaros no chão.

Aves nacionais e estrangeiras, aves de rapina e aves canoras, aves de terra e aves que voam, araras, papagaios, cacatuas, faisões, pavões-do-pará, grous, flamingos, patos, marrecos, emas, casuares, enfim, aves para todos os gostos, exceto aves marinhas.

Dali saímos em direção ao aeroporto, onde tomaríamos o avião para retornar a Porto Alegre.

As Missões no Rio Grande do Sul

Quadro: "Ruínas de São Miguel" de Scheila Versiani óleo sobre tela18x24 cm.


No Feriado de Corpus Christi de 1997 visitaríamos o cenário do poema épico do mineiro Basílio da Gama, O Uraguai: as Missões.

Saímos de carro, Scheila dirigindo, às 6 h da manhã de Porto Alegre, seguindo por Canoas, em direção à BR 285, que nos conduziria à estrada para Santo Ângelo.

Como seguíamos na direção oposta à do nascente, passamos um bom tempo às escuras na estrada, que estava particularmente perigosa em virtude dos inúmeros trechos em obras.

Foi-se-nos revelando a seguir a paisagem serrana: plena de verde, vegetação luxuriante, araucárias e pinheiros natalinos, perpassado vez por outra por uma névoa.

Cruzamos várias pontes sobre rios, arroios e brejos.

Chegando ao trevo de Carazinho, tomamos a direção de Santo Ângelo, na qual, contudo, não entraríamos, para podermos visitar, fazendo menos idas e vindas, todas as ruínas que nos interessavam.

A paisagem serrana vinha, gradualmente, sendo substituída pelo pampa: imensas planícies descampadas, vegetação rasteira, com pequenos bosques aqui e ali, que evocavam a epopéia de quantos, índios e brancos, lutaram por sobreviver naquelas terras.

A cruz missioneira, de três braços, postava-se à entrada de cada cidade que constituíra, antes, uma redução.

Decidimos pernoitar no único hotel de São Miguel das Missões, já que nos haviam cantado em prosa e verso o famoso espetáculo de som e luz que se realizaria à noite.

Chegamos a São Miguel, cujo cenário, não sei por qual motivo, me pareceu familiar.

Um dado que me deixou bastante entristecido foram as crianças com traços guaranis pedindo esmola nas ruínas da missão.

Após almoçarmos no restaurante que fica ali perto, Scheila deu-lhes alguma comida.

Ao adentrarmos as ruínas, dirigimo-nos ao museu, onde se viam algumas das peças elaboradas pelos guaranis, tanto sob o ponto de vista utilitário, como pias, por exemplo, quanto sob o ponto de vista místico, como era o caso das figuras de santos e de anjos com traços guaraníticos e cabelos louros.

Tal como nas construções incaicas e em Tiahuanacu, as pedras das construções missioneiras unidas sem argamassa.

A admiração que Saint-Hilaire demonstrou sobre o verdadeiro milagre operado pelos piedosos padres sobre aqueles brutos selvagens não passa de manifestação de puro preconceito de colonizador, que não deixa de guardar uma certa relação com o sentimento experimentado por Cortez em face das edificações dos bárbaros astecas.

Hemetério José Velloso da Silveira, adversário dos que viram nas Missões uma forma de explorar a força de trabalho dos guaranis, tinha, a respeito do engenho destes, o mesmo conceito que o Governador Gomes Freire: incapazes de raciocinar, devido a apoucada inteligência, poderiam, quando muito, ser bem adestrados, como animais de circo.

Aliás, ser apresentado como atração circense foi o destino dos charruas, índios do Uruguai dizimados em 1850, inimigos dos espanhóis e dos jesuítas, e que ajudaram as forças do Tratado de Madrid a vencerem as dificuldades do terreno durante as Guerras Guaraníticas.

Na simpática capital do país vizinho – onde adquiri uma tradução em espanhol do diário de viagens do Coronel Fawcett -, cuja população indígena foi totalmente destruída e, em sua população global, somente 3% apresentavam ascendência dos autóctones, foi erigido um monumento aos charruas.

A Colônia do Sacramento, cidade portuguesa construída nos inícios do ciclo do ouro no Brasil (1680), por onde se iniciou o estabelecimento do homem branco no território que, à época em que estas linhas eram escritas, pertencia ao Uruguai, fôra, por ocasião do Tratado de Madrid, em cuja redação teve papel preponderante o brasileiro Alexandre de Gusmão – irmão do Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, a quem se atribui a primazia sobre os irmãos Montgolfier na invenção do balão –, entregue aos espanhóis em troca do território missioneiro.

Em maio de 1998, visitaríamos aquela pequena cidade no Uruguai onde é destacada a presença lusitana, em que nos chamaram a atenção as telhas moldadas sobre as coxas dos escravos, o grande número de canhões espalhados pelas praças, os azulejos, tudo revelando um forte parentesco com as cidades históricas de Minas Gerais.

Chamou-nos a atenção, também, na Colônia do Sacramento, a boa educação dos motoristas, que paravam sempre à aproximação do pedestre, algo que o Dr. Luiz Vicente de Vargas Pinto atribuía à ausência de indústrias automobilísticas no país, e, por esta mesma razão, à ausência do afã de velocidade que se imprimia na mentalidade da população que vivia à volta de tais indústrias.

Mas, voltemos às Missões riograndenses.

Quando foi feita a restauração primeira na catedral de São Miguel - cujo risco originário data de cerca de 1740, sendo atribuído a Gian Battista Primoli -, utilizou-se tijolo e argamassa, produzindo um resultado estético discutível, destoando do original, embora as intenções de quem o fez sejam merecedoras de todo louvor.

As colunas tinham capitéis que lembravam levemente o estilo coríntio, embora elas mesmas se prendessem mais à simplicidade do estilo dórico.

Chamavam a atenção certos entalhes na pedra e na madeira que lembravam folhas de erva-mate, o que mostrava ser verdadeira a asserção de Menotti del Picchia quanto a ter sido o índio quem conquistou o jesuíta e não o contrário, já que os padres se opunham tenazmente à utilização do chimarrão quando iniciaram a catequese.

Veja-se que o Coronel Fawcett, quando esteve nos domínios do que antes fora o Império Teocrático Jesuíta, observou que, a despeito do aparente zelo dos nativos pela Igreja, conservavam eles suas antigas cerimônias, realizando-as em segredo, já que o emblema formoso do sol para eles mais significava que a hipocrisia dos sacerdotes.

Também chamavam a atenção entalhes e riscos mais recentes, de vândalos que queriam que a posteridade soubesse como se chamavam...

Cumpre lembrar, ainda, que as missões se rebelaram inclusive contra a autoridade da cúpula da Companhia de Jesus, que era pela obediência incondicional à autoridade dos reis dos dois únicos Estados onde não pudera frutificar a Reforma Protestante, algo mui semelhante ao que ocorreu nas Minas Gerais à época da Guerra dos Emboabas, início do século XVIII, como se pode ler nos Estudos sobre o ciclo do ouro, do meu caríssimo Professor e amigo Washington Peluso Albino de Souza.

Não podemos esquecer que a catequese jesuítica surgiu precisamente como uma manifestação da Contra-Reforma, da reação da Igreja ao cisma desencadeado por Lutero na Saxônia e Calvino na Suíça, com muito maior sucesso que as heresias que haviam espocado na Idade Média precisamente por não traduzirem movimentos que pregassem o apeamento dos senhores em prol dos camponeses.

Tinha ela, portanto, um caráter eminentemente conservador, e isto não escapou a Castro Alves.

Não foi sem motivos que déspotas esclarecidos, simpatizantes do pensamento iluminista, como o Marquês de Pombal, combateram o poder dos jesuítas, chegando mesmo à sua expulsão, temendo que viessem, de repente, a submeter o poder temporal ao poder espiritual.

Aliás, Hemetério José Velloso da Silveira, partidário incondicional dos jesuítas, refere que o combate a estes fazia parte do plano do astuto político português para enfraquecer a nobreza e o clero, que se colocavam como verdadeiros obstáculos a que se convertesse no Richelieu ibérico.

Fugindo ao partidarismo que quantos que se debruçaram sobre este capítulo da história americana demonstram, ora enaltecendo a "dedicação dos padres", como Saint-Hilaire e Hemetério Silveira, ora louvando a "ação libertadora promovida pelas tropas luso-espanholas", como Avé Lallemant e Basílio da Gama, passando pela caracterização da República dos Guaranis como a primeira experiência genuinamente comunista, forçoso reconhecer o tirocínio do ministro português, que percebia estar a soberania de seu país em sua colônia do Atlântico com os dias contados.

A Guerra dos Emboabas estalara no ano de 1708, a revolta de Felipe dos Santos contra as Casas de Fundição ocorrera em 1720, Amador Bueno em São Paulo fôra aclamado rei, o descaminho do ouro e pedras preciosas era prática rotineira, os conflitos entre colonos portugueses e missionários jesuítas no Pará pelo concurso do trabalho indígena, prejudicando o abastecimento do porto lisboeta dos produtos conhecidos como drogas do sertão (especiarias e ervas medicinais), o escoamento do ouro das Minas Gerais para a Inglaterra em virtude do Tratado com esta assinado por Portugal em 1703, o progressivo enriquecimento de outros Estados Nacionais que conhecera em virtude do exercício da carreira diplomática, tais os fatos que fundamentavam os seus temores.

Mas, voltemos a São Miguel.

Ali é que o famoso Sepé Tiarayú ou Tiaraju, o guerreiro lunar, santificado pelos missioneiros, um dos heróis do poema que Basílio da Gama paradoxalmente compusera para louvar ao destruidor de São Miguel, o General Gomes Freire de Andrade, liderou a resistência contra as tropas de Portugal e Espanha.

Visitamos também ali, enquanto não caía a noite, a fonte jesuítica, feita das mesmas pedras que serviram para edificar a catedral, com figuras de anjos com traços guaranis.

Fomos assistir ao espetáculo de som e luz.

Demorei um pouco para aprender a lidar com a filmadora no escuro, já que tinha ela dispositivos aptos a permitirem a reprodução mesmo com baixa luminosidade.

Deste modo, alguns fotogramas saíram pura e simplesmente escuros, outros, com uma imagem impressionista, apenas sugerindo a catedral filmada.

A noite estava magnificamente estrelada.

As luzes acendiam em lugares estrategicamente planejados, de tal sorte que parecia ganharem vida a catedral e o bosque situado à sua esquerda.

Diálogos em versos do bosque com a catedral, dos personagens do drama que se desenrolara naquela primeira metade do século XVIII, músicas daquela época, reprodução dos combates, tudo realçando a tragédia que ali ocorrera.

Em que pese a beleza do espetáculo, sob o ponto de vista do texto, talvez melhor se houvesse se tivesse sido escrito em prosa.

Após o apagar das luzes, com a Scheila pela mão, olhei em direção à catedral e imaginei a cena descrita na lenda colhida por Simões Lopes Neto a respeito das mulheres guaranis refugiadas ali dentro com suas crianças, cercadas pelas feras e perseguidas pelas tropas luso-espanholas, criando campo para a ação da Boi-Guaçu.

Dia seguinte, rumamos a São João Batista.

Uma placa indicando o caminho para São João das Missões induziu-nos em erro, já que esta localidade não figurava no mapa Quatro rodas que tínhamos em mãos, assim como São João Batista.

Trilhamos meia hora em uma estrada de terra, cheia de bifurcações, até que um passante nos esclareceu que São João das Missões e São João Batista eram localidades diferentes, com o que preferimos pegar a estrada para Santo Ângelo e, dali, tomar o acesso às ruínas missioneiras.

É de se esclarecer que somente São Miguel tinha acesso pavimentado da BR às ruínas, o mesmo não ocorrendo quanto às demais.

Em São João Batista, ao contrário do que ocorria em São Miguel, a entrada era gratuita.

A conservação do sítio arqueológico, entretanto, deixava mais a desejar, já que as pedras da igreja foram utilizadas como material para a edificação de moradias de habitantes das imediações.

O espaço era retomado pela natureza, as árvores cresciam sobre os restos das edificações que antes ali existiram e que abrigaram a primeira usina de fundição do minério de ferro no Rio Grande do Sul, instalada ali em 1697 por um erudito músico, o Padre Antônio Sepp, que deixou um dos mais importantes testemunhos escritos sobre a vida nas Missões.

O antigo cemitério da missão continuava a ser utilizado pela comunidade do vilarejo que era próximo às ruínas.

Destacava-se nas ruínas um mural representando o Padre Antônio Sepp e os índios pondo a trabalhar a forja.

A cerâmica, ali, era trabalhada de acordo com duas técnicas.

Uma, trazida pelos jesuítas, empregando o torno de oleiro.

A outra, desenvolvida pelos autóctones desde tempos imemoriais, consistente na roletagem, isto é, na confecção de utensílios a partir de um rolo feito com a mão.

O guarda das ruínas de São João referiu, com relação à sua restauração, que se estava fazendo um esforço para se recuperarem as pedras originais, que a cupidez e incúria de antigos administradores permitira fossem dali levadas.

São Lourenço Mártir, no Município de São Lourenço das Missões, mais destruída que São João Batista, outrora tivera uma Catedral famosa por sua opulência, à qual fez referência o viajante Saint-Hilaire que esteve no Rio Grande do Sul entre 1821 e 1822.

Fôra a redução uma das mais prósperas, sendo um importante centro produtor de gado e erva-mate.

Uma vaca pastava onde fôra antes a Catedral, destruída muito menos pelas Guerras Guaraníticas do que pela incúria administrativa e pelos colonos que resolveram utilizar-lhe as pedras para construírem suas moradias - fato denunciado tanto por Robert Avé-Lallemant, que visitou as ruínas em 1850, como pelo viajante pernambucano Hemetério José Velloso da Silveira, que visitou as ruínas em 1855, como também pelo Cônego João Gay, que registrou o prosseguimento da obra de destruição em 1863.

Resolvemos ir a São Nicolau, onde se situava a comunidade dos melhores escultores, segundo os testemunhos da época.

Pegamos a estrada para São Luiz Gonzaga e entramos na cidade em direção a 16 de Novembro, uma pequena cidade agrícola, povoada por colonos alemães.

O caminho mais curto de 16 de novembro para São Nicolau estava interditado, por causa das obras de asfaltamento do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem do Estado do Rio Grande do Sul, que, ademais, poderia também proceder à pavimentação do caminho para as outras ruínas, já que elas foram tombadas pela UNESCO como patrimônio cultural da humanidade.

As ruínas da Igreja de São Nicolau, construída em 1626, situam-se na Praça Central

Scheila chamou-me a atenção para o fato de que o soalho da igreja não era de chão batido, mas de pedras, cujos restos ainda se viam pelo chão da Praça.

Consegui filmar um joão-de-barro que pulava sobre as pedras do antigo soalho.

Fora da Praça, a entrada para um túnel subterrâneo construído àquela época.

Crianças em uma casa vizinha exercitavam-se no laço, com uma caveira bovina pendurada num cavalete de construção.

No Museu de São Nicolau, filmamos utensílios de metal como maçanetas, fechaduras, pregos fundidos nas Missões.

Terminada esta visita, projetamos uma viagem às missões da Argentina (San Ignacio Mini) e do Paraguai (Trinidad), para completarmos o ciclo.

Após a visita a São Nicolau, passamos por Santo Ângelo, onde conhecemos o Museu Histórico e Regional, onde se vêem tanto peças dos tempos das Missões como reminiscências da Guerra dos Farrapos e da Revolução Federalista.

Não chegamos a ver a Estação Ferroviária, construída em 1918 a partir de um projeto de Luís Carlos Prestes, mas vimos ali um monumento à Coluna Prestes-Miguel Costa - um dos marcos do tenentismo, pois à época não havia ainda Prestes abraçado a doutrina marxista - feito por Oscar Niemeyer.

Decidimos pernoitar em Cruz Alta, a terra natal de Érico Veríssimo, cuja casa fôra adquirida pela municipalidade e tombada sete anos antes da morte do autor da saga dos Terra-Cambará.

À vista dos preços no calçadão dos hotéis, seguimos a orientação de um dos habitantes e paramos na Pensão Serrana: simples, limpa, barata e com água quente e bom refeitório.

No dia seguinte, visita à casa de Érico Veríssimo, onde além dos objetos que lhe pertenceram e das fotos em que o romancista aparecia ao lado de pessoas do mundo político e artístico, chamaram a atenção particularmente os seus desenhos, a sua obra de cartunista.

Dali, seguimos a Santa Maria, cidade universitária, com um trânsito extremamente irracional, que em maio é cenário de um dos mais importantes eventos da música nativista: a Tertúlia.

Por ali é que subiram as tropas encarregadas de fazer cumprir o Tratado de Madrid, numa jornada que, abstração feita do seu desígnio, não deixou de merecer o epíteto de heróica, já que o frio fora responsável pela morte de animais de carga, montarias e soldados.

Quisemos visitar a catedral, construída nos anos 20, com inspiração francamente barroca.

Estava fechada à visitação pública, o que foi uma pena, pois eu queria ver os afrescos de Aldo Locatelli.

De Santa Maria, seguimos em direção à estrada que liga Uruguaiana a Porto Alegre.

Acostumado como estava a fazer o percurso de ônibus à noite, aos tempos em que iniciara minha carreira, era, efetivamente, a primeira vez que eu reparava na beleza do cenário pampeiro que ladeava a BR 290.

Melhor um poeta, Basílio da Gama, para descrever no Canto IV d' O Uraguai tal cenário:

"Assim quem olha do escarpado cume
Não vê mais que o céu, que o mais lhe encobre
A tarda e fria névoa, escura e densa.
Mas quando o Sol de lá do eterno e fixo
Purpúreo encosto de dourado assento,
Coa dourada mão desfaz e corre
O véu cinzento de ondeadas nuvens,
Que alegre cena para os olhos! Podem
Daquela altura, por espaço imenso,
Ver as longas campinas retalhadas
De trêmulos ribeiros, claras fontes
E lagos cristalinos, onde molha
As leves asas o lascivo vento.
Engraçados outeiros, fundos vales
E arvoredos copados e confusos".

A escada e a espiral - Capítulo 20: Caminho de volta, Playa de Sámara na Costa Rica e Caracas, Venezuela.

Chegando ao Aeroporto Juan Santamaría, na Costa Rica, passamos rapidamente pela imigração.

Resolvemos tomar um táxi até o terminal rodoviário de onde sairiam os ônibus para Sámara, tendo combinado o preço de 8 dólares.

No mesmo táxi, ia um norte-americano, natural da Carolina do Sul - a este nem dava para chamar de ianque, já que seu Estado abraçara a causa dos confederados -, que residia em um condomínio fechado e havia combinado com o motorista 10 dólares.

Ao perceber que pagaríamos menos que ele, mesmo sem saber uma só palavra de espanhol, conseguiu reduzir a tarifa para o preço que combináramos e ainda pagou a nossa corrida.

Em seguida, o táxi deixou-nos no terminal da Viação Alfaro.

Pegamos um ônibus extra, que sairia às 12h45, tendo conseguido as últimas passagens.

Seguimos por terra até o Golfo de Nicoya, onde atravessamos o Pacífico a ferry boat, cujo pagamento não estava incluído na passagem de ônibus.

Revoadas de gaivotas e cormorões cruzavam o trajeto do ferry atrás dos detritos, fazendo um barulho infernal.

Tomamos novamente a estrada, chegando à noite em Sámara.

Conseguimos hospedagem no Hotel Marbella, de propriedade de um jovem tcheco, muito simpático - ao contrário da maior parte dos europeus que ali viviam -, que deixara seu país algum tempo depois da posse de Vaclav Havel, de quem fora partidário na época do regime stalinista, e com quem conversávamos em inglanhol.

Fomos jantar no Restaurante Sol y Playa, tendo eu pedido um arroz com polvo e Scheila um sanduíche de tomate e queijo.

A praia, realmente, era a mais tranqüila das praias do Pacífico que até então conhecêramos.

Havia um grande recife de coral que amortecia a violência das ondas.

Volta e meia, víamos pelicanos mergulharem à procura do alimento para seus filhotes.

Entretanto, isto não significava serem as águas tranqüilas.

Normalmente, entrávamos na foz de alguns rios limpos que ali desaguavam e que, no encontro com o mar, por alguma razão, sofriam um aumento na temperatura de suas águas.

Não raro, víamos narcejas com o seu andar dançante à procura de moluscos.

Informaram-nos de que a alguns quilômetros dali havia uma praia ainda mais tranqüila e limpa denominada Carrillo, a curta distância de Sámara.

Procuramos um local que nos alugasse bicicletas.

O que tinha o preço mais em conta era um hotel de propriedade de italianos.

Entretanto, não se contentaram em exigir os nossos passaportes apenas para o efeito de identificação, como seria razoável.

Queriam ficar com eles como garantia, o que é extremamente imprudente em país estrangeiro.

Resolvemos então seguir a pé pelas areias de Sámara para, depois, contornarmos o rochedo extremamente largo que a separava de Carrillo, na qual entramos pelo mato.

A praia, mais deserta que Sámara, de fato tinha águas mais tranqüilas, onde pelicanos, gaivotas e andorinhas-do-mar - foi a primeira vez que vi esta, que eu considero a mais bela dentre as parentes da gaivota, fora de uma gravura de livro ou de um documentário cinematográfico - faziam loopings espetaculares para mergulharem atrás do peixe.

Fomos informados de que nela fora feito o filme em que Gérard Depardieu interpretara Cristóvão Colombo - 1492, de Ridley Scott -.

O caminho entre Sámara e Carrillo lembrava um poema de Baudelaire: um céu azul, sem nuvens, um verde vivo das folhagens, alguns sítios e uma grande concentração de urubus sobre a carniça de um burro.

Na praia de Sámara havia hotéis que ofereciam uma grande variedade de esportes aquáticos e aluguel de cavalos.

Restaurantes e campings também não faltavam.

Quase todos pertenciam a europeus - franceses, italianos, espanhóis, alemães -, que, em não pequeno número, julgavam estar fazendo um grande favor à população local por levarem a sua condição de seres superiores para iluminarem o país.

Os costarricenses, de um modo geral, eram mais cordatos, mais simpáticos.

Lembro que em uma lancheria onde pretendíamos almoçar pedimos uma água de côco.

Embora ali não houvesse, imediatamente saíram e compraram dois côcos verdes para os turistas brasileiros que ali iam almoçar.

Tomamos ao cabo de alguns dias o ônibus para San José e, de lá, fomos ao Aeroporto para pegarmos o vôo para Caracas.

A atendente estudava português e, ao ver que éramos brasileiros, teve a oportunidade de testar seus conhecimentos.

Tínhamos sido amplamente prevenidos em relação a Caracas, quanto a ser uma cidade extremamente perigosa, onde havia muitos assaltos.

Nossa primeira experiência com os venezuelanos fora por ocasião de nossa lua-de-mel na Isla Margarita, em 1995, o ponto mais meridional a que Cristóvão Colombo chegara, onde a Espanha mantivera fortes contra os piratas e corsários do Caribe e, até hoje, grande exportadora de pérolas.

A impressão que tivéramos era de um povo alegre, trabalhador e que gostava dos brasileiros, dada a festa que faziam cada vez que se revelava a nossa nacionalidade, festa que não faziam nem para os americanos, nem para os alemães, nem para os franceses.

Ao chegarmos, trocamos nossos traveller's checks e nos dirigimos ao posto de turismo oficial, no Aeroporto.

Conseguimos hospedagem em hotel no centro de Caracas, com habitação ampla, banho privado, água quente.

No dia seguinte, fomos conhecer a cidade, em busca de lugares que, efetivamente, lembrassem Simón Bolívar.

Scheila fotografou-me ao pé de uma sua estátua eqüestre e, depois, fomos à casa onde nasceu, transformada em museu onde as fotos somente eram permitidas sem flash.

Mais que um herói nacional que tentara concretizar os ideais do iluminismo, mais que um personagem histórico, Bolívar era, tal como Sepé Tiaraju, como Tiradentes, como Zumbi dos Palmares, como Bento Gonçalves, um herói mítico.

Sua biografia romanesca, plena de lances épicos, frases históricas, casos de amor extraconjugais, gestos de extrema generosidade, fez do Libertador uma presença marcante mesmo no final do século XX, pois o seu sonho foi a integração da América Latina.

No imaginário popular, Bolivar ultrapassou os limites da condição humana, para alcançar o objetivo de terminar o martírio imposto pelos espanhóis aos latino-americanos. Note-se que, nesta época, sequer havia ainda a utilização do adjetivo "bolivariano" para designar a República da Venezuela.

Estivemos ainda na Corte Superior de Justiça e na Igreja de São Francisco de Assis.

Notamos que a cidade estava bem servida, tal como a Cidade do México, de linhas de metrô.

Este, ali, não era concebido como uma espécie de trem de subúrbio, ao contrário do que ocorria em Belo Horizonte.

Ao contrário, verificava-se que os seus usuários deviam pertencer, de um modo geral, à classe média alta.

Sem quaisquer incidentes de maior relevância, retornamos ao Brasil, entrando nas nossas cogitações os sítios arqueológicos no nosso país.

A escada e a espiral - Capítulo 19: Guatemala

Já a bordo do avião, falou-nos a brasileira a respeito de Antigua Guatemala, um distrito semelhante a Parati, no Rio de Janeiro.

Ofereceu-nos carona no automóvel que viria buscá-la, o que aceitamos de bom grado.

O avião pousou no hangar.

O motorista deixou-nos na Agencia de Viajes Tivoli, onde reservamos as passagens para irmos a Caracas, sendo que teríamos de passar obrigatoriamente pela Costa Rica.

Alojamo-nos no Hotel Mayestic, que se situava na Zona 9.

Tinha ele TV a Cabo e banho privado.

Entretanto, a água dita "caliente" não "calientaba".

As camas eram arrumadas sem que se limpasse o banheiro.

O pagamento era exigido sempre adiantado e, quando o hóspede pagasse a mais, se ele não exigisse o troco, não lhe seria este devolvido espontaneamente pelo clerk.

Pretendíamos no dia seguinte visitar o Museo Popol Vuh, próximo ao hotel, onde havia uma réplica do Códice Dresden, uma longa tira de "papel" maia, com desenhos coloridos e inscrições.

Ao acordarmos, saímos em busca de um lugar para tomarmos desayuno.

Passamos no caminho por uma livraria do Fundo de Cultura Econômica do México e entramos à procura da Nueva Corónica del Buen Gobierno, sem sucesso.

Contudo, tivemos a indicação de um lugar para comermos, o Pollo Campero.

Um sanduíche e dois refrescos para cada um e um cafezinho para mim.

A seguir, descobrimos que o Museu que procurávamos não se situava mais no endereço que constava no Lonely Planet.

Transferira-se para o campus da Universidade Francisco Marroquín, onde se localizava também o Museu Ixchel do Trajo Indígena.

Este último estava aberto à visitação pública, ao contrário daquele que desejávamos conhecer, que somente se abriria em março.

Para completar, a réplica do Códice estava encaixotada.

Mais tarde, já residindo em Porto Alegre, adquiriríamos uma edição do aludido Códice comentada por J. Eric Thompson na representação do “Fondo de Cultura Económica” na cosmopolita Buenos Aires.

Retornamos ao hotel, depois de passarmos na Agência, para vermos se as passagens reservadas já tinham sido emitidas, o que não ocorrera.

Foi aí também que descobrimos que, com todo o calor que fazia, era uma temeridade uma mulher andar de bermudas na Cidade da Guatemala, mesmo que estivesse acompanhada, já que esta circunstância era considerada irrelevante para os guatemaltecos se sentirem encorajados ao gracejo, mesmo que a conseqüência fosse um rugido do marido.

Paga a segunda diária, subimos e assistimos um pouco à televisão.

Por volta das 16h, saímos em busca de um shopping center, pois precisávamos comer alguma coisa e reabastecer nosso estoque de meias.

Foi então que começamos a cogitar, para que a viagem à Cidade da Guatemala rendesse alguma coisa, de passarmos em alguma livraria para comprarmos uma reprodução em papel do calendário maia.

No caminho, notamos que os guardas de instituições financeiras, mesmo dentro de shoppings, andavam muito mais armados que no Brasil.

Depois de muito caminhar, obtivemos na Librería del pensativo um estudo de autoria de Marco e Marcus de Paz intitulado Calendario maya - el camino infinito del tiempo.

Retornamos uma vez mais à Agência, onde adquirimos as passagens, que nos custaram 960 dólares, sendo que 160 eram decorrentes de impostos.

Retornamos então ao hotel, solicitando à recepção que nos acordasse às 4h, já que o vôo para San José partia às 7h45.

Acordados às 4h, chamamos pelo telefone o táxi amarelo.

A Avenida onde se localizava o hotel estava completamente deserta.

Esperamos longamente, ligamos de novo.

45 minutos depois, apareceu o táxi amarelo.

Uma vez no Aeroporto La Aurora, mesmo sendo nós os primeiros a chegar, empurraram-nos o último assento da ala de não-fumantes.

Tínhamos certa pressa de chegar à Costa Rica, onde pretendíamos desfrutar - uma vez que não haveria vôo para Caracas naquela mesma data -, durante dez dias, de um repouso na Praia de Sámara, que nos fora indicada pelo turista espanhol que conhecêramos no Vulcão Poás.

O vôo faria, ainda, uma escala em El Salvador, para onde se dirigiam alguns eclesiásticos e onde outros embarcariam (estes últimos, certamente, mais aliviados, a se dar crédito ao Newsweek e ao Time, que noticiavam amiúde o assassinato de membros do clero católico em El Salvador).

A saída teve algo de insólito: os teco-tecos, ao que parecia, tinham precedência sobre os aviões comerciais, ao contrário do regime adotado no Brasil.

O itinerário da Cidade da Guatemala a San Salvador foi percorrido como se estivéssemos no lombo de um cavalo chucro, embora a aterrissagem tivesse sido até bem feita.

A escada e a espiral - Capítulo 18: Guatemala - ruínas de Tikal



No dia seguinte, saímos à procura de um hotel.

Escolhemos o Hotel Santana, 25 dólares para o casal, quarto em frente ao Lago Petén Itzá, mais longe da festa, com sacada, banho privado, água quente, extremamente confortável.

Tomamos depois o micro-ônibus que passava em todos os hotéis para conduzir os turistas a Tikal.

Tikal era uma grande cidade que foi coberta em grande extensão pela selva.

Assim, juntamente com o Parque Arqueológico, o sítio abrigava uma reserva ecológica.

Logo após seguirmos em direção à entrada da cidade, um coiote cruzou a estrada vestibular.

Na Grande Praça, inúmeras estelas e lápides entre os Templos I e II.



Fomos ao Templo IV por uma estrada povoada por quetzais e pica-paus.

À base do Templo IV, um buliçoso quati, ali denominado pizote.

Iniciamos a subida: escadas de madeira, pedras, raízes de árvore, escadas de madeira, até que chegamos à escadaria do Templo.

Dali se viam os edifícios lutando por se sobressaírem às árvores, confronto natureza-cultura, diria um racionalista.

Dali se ouviam os rugidos de um grande felino, que poderia ser uma onça pintada, um puma ou então, não um felino, mas um macaco que os imitava, todos três habitantes da reserva ecológica de Tikal.

As ruínas se estendiam por uma área de 8 km.

Havia ainda lugares que estavam sendo objeto de escavação.

Outros, ainda, eram interditados aos seres humanos, certamente por estarem reservados aos ursos, ocelotes, pintadas e pumas.

A sinalização era verdadeiramente falha.

Muitas construções não eram identificadas por placas, muitas encruzilhadas sem qualquer indicativo que esclarecesse quanto ao caminho que estava sendo percorrido.

Voltamos à Grande Praça e nos deitamos no gramado, que convidava ao descanso.

Ali havia um quati, mais velho que o do Templo IV e menos arisco, que fez travessuras encantadoras, enquanto vasculhava o gramado à procura de alimento.

Apoiou-se com ambas as patinhas dianteiras numa garrafa de água sem a derrubar, pulou sobre a raiz de uma ceiba onde se encontrava um senhor descansando, recusou alimento que lhe ofereciam, preferindo cavar o gramado, posava para fotos e deixava-se afagar.

Ao regressarmos, compramos passagens de avião para o dia seguinte.

Estávamos cansados demais para visitarmos Uaxactun e Ceibal, ruínas menores, cujo acesso seria muito penoso pela demora e pelo grande número de acidentes geográficos.

Quando voltamos ao hotel, havia na rua um grupo folclórico dançando ao som de um xilofone tocado por três marimbeiros.

No dia seguinte, nosso projeto de aproveitarmos todo o prazer de contemplar o ir e vir dos barcos sobre as águas cristalinas do Lago Petén Itza foi perturbado por trabalhadores que resolveram, bem sob a nossa sacada, com o vento soprando contra nós, queimar o lixo da obra em que estavam trabalhando.

Resolvemos, então, sair após o café a conhecer Flores, uma cidade pequena, com cinco ruas cortadas por três, todas pavimentadas com bloquetes, como em São Lourenço, no sul de Minas Gerais.

Ligada a Santa Elena por uma pequena faixa de terra não pavimentada.

Ambas as cidades foram construídas sobre as ruínas de antigas cidades maias, bem de acordo com a tradição espanhola na América.

Por ocasião do almoço, resolvi descobrir que sabor teria a carne de veado, tão apreciada pelos príncipes europeus.

Pareceu-me semelhante ao da carne de porco, embora menos gordurosa que esta.

No Aeroporto de Flores, travamos conhecimento com uma brasileira cujo cunhado trabalhava para a Hoechst da Guatemala.

Informou-nos que a capital do país era um local extremamente perigoso, que seria preferível buscarmos um hotel que se situasse em Zona de número igual ou superior a 9 e, quando precisássemos tomar algum táxi, o amarelo era melhor tanto em termos de segurança como em termos de preço.

Fomos tomar o avião da TIKAL JETS.

Tivemos de nos deter no meio do caminho, pois prestes a decolar estava o da AVIATECA.

Aguardamos no meio da pista a decolagem, um vento fortíssimo soprava, empurrando-nos para trás de tal sorte que parecia que íamos levantar vôo.